A NATO é a grande vencedora desta crise qualquer que seja o desfecho da invasão da Ucrânia pela Rússia?
Creio que se há um claro vencedor, seja qual for o desfecho, é a China. A NATO (como instituição) tem, ainda assim, alguns ganhos. Além de sair revitalizada (como, de resto, saiu de todas as crises em que se vaticinou a sua inutilidade e extinção), por agora consegue um alinhamento com a UE, em que o relançamento da política de segurança comum europeia se vai fazer em complementaridade com a NATO, e não procurando uma real autonomia estratégica. Dentro da NATO, os ganhos são assimétricos, com os EUA a saírem claramente beneficiados, seja pelo redesenhar da geopolítica energética, seja pelo compromisso dos membros em aumentarem os seus gastos de defesa (desde há muito uma exigência dos EUA), seja pela potencial adesão da Suécia e da Finlândia.
De algum modo, pode também dizer-se que a NATO propiciou a invasão ao prometer uma adesão da Ucrânia, mas sem avançar com esta ou dar garantias de defesa em caso de invasão?
A política de expansão da NATO para além dos antigos países do Pacto de Varsóvia foi duplamente canhestra. Por um lado, porque exacerbou as preocupações geoestratégicas russas, e contribuiu decisivamente para a crispação diplomática e militar do Kremlin. Por outro lado, porque o fez sem ser decisiva ou rápida o suficiente, deixando países como a Geórgia e a Ucrânia numa posição insustentável, ao não entrarem no envelope estratégico (convencional e nuclear) da Aliança. A decisão de invadir (desde logo a Crimeia, depois os territórios do Donbass, e agora o resto da Ucrânia), de forma absolutamente ilegal e condenável à luz do direito internacional, é da exclusiva responsabilidade de Vladimir Putin. Mas acho indiscutível que a ideia de uma expansão, e a forma como ela (não) foi feita, foi uma péssima ideia, um erro e um risco de enormes proporções – coisa que, de resto, vários indivíduos…


