Sempre que passo por esses verdadeiros aquários, cheios de pessoas fazendo exercícios físicos, que são as academias, me recordo de meus tempos de morada na zona rural do Cariri paraibano, a área mais árida do sertão desse estado (no que contrasta totalmente com o Cariri cearense, uma das áreas úmidas do sertão do Ceará), e de como o ser gordo e o ser magro possuíam sentidos totalmente distintos daqueles que, hoje, notadamente nas cidades e entre as classes médias e altas, se manifestam, por exemplo, na cultura do corpo, na estética e nas práticas fitness.
No sertão, uma área secularmente marcada pela fome, pela escassez de alimentos, pela penúria, notadamente, em períodos de ocorrência de prolongadas estiagens, o ser gordo tem um sentido diametralmente oposto ao que hoje é propalado pelos discursos de médicos, de nutricionistas, mesmo pela mídia, que veicula essa cultura do corpo magro, malhado, musculoso, através, inclusive, de programas que fornecem rotinas de exercícios para serem realizados pelos telespectadores, notadamente, pelas telespectadoras, nas salas de suas residências.
A verdadeira indústria que se desenvolveu em torno da cultura corporal da malhação (que não por coincidência se transformou em título de série televisiva voltada para o público adolescente) vem implantando outras formas de significar o estar ou o ser gordo ou magro. Numa área do país em que a magreza, por subnutrição, por causa daquilo que o sociólogo Josué de Castro nomeou de fome endêmica, o ser ou o estar magro não era/é associado a estar saudável, muito menos ao estar belo e atraente sexualmente. A magreza, desde o período colonial, era vista como uma marca distintiva da pobreza, daqueles que não podiam se alimentar bem. A elite senhorial, aqueles que tinham posses, eram opulentos não apenas de haveres mas também de carnes.
O gordo, como aborda Gilberto Freyre, era uma marca de classe,…


